quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Esse é um artigo muito legal que achei na rede.Espero que curtam e reflitam.

Abraços.

BIKE
Por que as bicicletas e equipamentos profissionais no Brasil são tão caros?


Texto de Eder Giovani Savio

Ciclistas não são Palhaços


PARTE I

Tecnologia cara e falta de referências reais.


Toda vez que falo que um amortecedor de bike não pode custar R$ 5.000,00 porque o de uma moto dual purpese comum, no Brasil, custa menos de R$ 1000,00, o pessoal responde indignado dizendo que estou comparando um amortecedor de bike top line com um amortecedor de moto comum. Pois bem, o da moto, mesmo sendo comum, é muito mais forte, tem empregado em si muito mais material e funciona muito melhor. O que importa se a moto é top ou base line? É claro que sei que o material empregado nas peças de bikes são mais nobres devido à necessidade de leveza. Mesmo assim, não esqueçamos da afirmação inicial: A diferença de preço é assustadora.

Alego, também, que é um absurdo um pneu de bike custar R$ 300,00, equanto um pneu de carro 1.0 custa R$ 90,00. Aí me respondem que um pneu especial de Jipe custa R$ 350,00 e é mais caro porque tem tecnologia empregada, assim como o de bike. Desculpem-me, mas continua intacto o raciocínio acima. Esse pneu de R$ 350,00 tem material para fazer pelo menos 20 pneus de bike, e o frete dele é bem mais caro, porque pesa mais também. Então, produto de tecnologia por outro, o de Jipe deveria custar R$ 7000,00, seguindo o padrão de preço das bikes.
Dizem-me que um câmbio XTR é algo quase perfeito e muito leve, o que justificaria o altíssimo preço. Com o devido respeito, peguem um câmbio desses na mão e verifiquem onde estão os R$ 500,00 que pedem por ele! Ora, um câmbio alemão Sachs/Sram com sete marchas internas, que podem ser trocadas com a bicicleta parada, da primeira para a sétima, por exemplo, custa DM 160,00 (cento e sessenta marcos), menos de R$ 150,00! Esse câmbio tem durabilidade muito grande e custa muito menos que um XTR. Ah! Então por que o pessoal não usa? Não usa aqui! Na Europa todo mundo está usando para Down Hill o Dual Drive Sachs, com sete catracas e três marchas dentro do cubo.

Motocicletas importadas para competição de Moto Cross chegam ao Brasil pelo dobro do preço de uma bike de down hill. Só que a motocicleta tem motor e peças extremamente reforçadas para agüentar a força de dezenas de Horse Power e não apenas das pernas de um ciclista. Têm sistema elétrico e tudo mais. Se seguissem a lógica dos preços da bike deveriam custar o preço de uma Ferrari.

Bom, mas o pessoal não desiste, dizem-me que o consumo de peças de bike desse nível é muito baixo, portanto o custo é caro. Ora, aqui na minha cidade conheço várias dezenas de pessoas com bikes com peças nobres da Shimano, por exemplo, e não sei nem de cinco com motos RY 125 da Yamaha, por exemplo. Não serve como desculpa, a produção mundial para peças de mountain bike é enorme e a mesma fábrica que produz peças caras também produz as populares vendidas em massa pelo mundo todo, basta entrar em um super-mercardo e ver quantas bicicletas a venda estão equipadas com câmbios Shimano.

Ciclistas Conscientes e Ciclistas Iludidos

Por que muitos ciclistas defendem um sistema que vilipendia a si mesmos? Por que defendem aqueles que tiram seu dinheiro para dar-lhes em troca uma tecnologia de falácia, de baixa resistência, que tem que ser reposta a cada dois ou três anos de uso regular? Essa questão me intrigou um bocado, mas depois, comecei a observar atentamente o pessoal do mundo bike e procurei em mim mesmo vestígios dos momentos em que senti orgulho dos componentes da minha bike e encontrei algo interessante.

Respondendo: Por que ciclistas defendem os altos preços?

Existem pelo menos quatro motivos, mas um sobressai flagrantemente e provocará reações adversas contra minha pessoa só pelo fato de afirmar isso:

1) Bicicleta, na sociedade atual, é meio de transporte de pobre, denota falta de condições financeiras, então o sujeito de classe média que gosta de bicicletas boas tem medo de ser confundido com o estrato social mais baixo e sente orgulho em afirmar "só esta corrente custa oitenta reais", "só esta pecinha custa duzentos reais". Sentem-se diferenciados das pessoas que usam bicicletas por necessidade e isso, para a classe média de comportamento distorcido pela mídia consumista, sempre preocupada em ostentar mais do que pode, é um canto de sereia irresistível. Observe-se que em países como a Alemanha, onde as diferenças sociais são tênues, peças de altíssimo nível tecnológico e extremamente resistentes, como um torpedo Sachs/Sram de 7 marchas internas ou um jogo de freios a disco hidráulicos Magura 2001 custam apenas DM 160,00 (cento e sessenta marcos), menos de R$ 145,00, o que é uma quantia irrisória para o padrão do operariado alemão. Isso evidencia a tese, pois ausente esse fator psicológico de consumo, ausente pessoas dispostas a pagar preços superestimados, presente o preço mais justo praticado pelo sistema.

2) Pessoas ávidas por qualidade iludem-se pensando que a conseguiram por ter pago um preço alto. Mas estes logo se revoltam ao deparar com a realidade, qual seja, a alta qualidade quebra logo, desgasta, apresenta folgas, etc. "Ah, mas você está usando a bike com muito rigor!". Bom se é para usar moderadamente para ela durar bastante, prefiro as bicicletas inglesas de cinqüenta ou sessenta anos de idade que os velhinhos de Nova Veneza/SC têm. Dentro desse grupo estão aqueles conscientes dos altos preços, mas que não vislumbram saída, pois não abrem mão da performance proporcionada.

3) Pessoas que fazem parte do sistema do mundo das bikes e querem que circule cada vez mais dinheiro, pois isso, honestamente, os beneficia, como competidores, lojistas, mecânicos, e pessoas que trabalham no comércio e na indústria. Um exemplo claro desse comportamento foi o do mundo futebolístico brasileiro em 1998. Qualquer pessoa isenta tinha certeza de que a França comprara a Copa do Mundo, mas os integrantes do mundo futebolístico negavam isso a todo custo, pois isso destruiria a ilusão popular e lhes tolheria os empregos.

4) Pessoas preocupadas em superar os colegas ou rivais, demonstrando equipamento superior, o que é medido pelo preço. Essas pessoas entram em intercessão forte com o item "1" acima, em intercessão média com o item "2" e intercessão fraca com o item "3".
Observe-se que as pessoas do item "3", que são as que tomam as decisões no mundo bike, beneficiam-se do comportamento das pessoas dos itens "1", "2" e "4".

Quem pode mudar essa realidade?

Apenas uma mudança radical de comportamento poderia modificar a situação, provocando aumento de durabilidade e baixa de preços, devido a exigência do mercado, que é composto por nós.

Talvez essa mudança não se compartimente apenas ao ciclismo, mas careça de uma revolução filosófica que tenha como substância a correta hierarquização de valores. Nossa sociedade deve acordar do sono em que se encontra, amortizada da realidade pelos fugazes prazeres do consumo sem objetivos claros e realistas. Vale a pena trocar seu automóvel semi-novo por um zero, se o seu não dá qualquer problema? Devemos continuar alimentando com bio-energia esse monstro que nos aprisiona? (Vide cinema - Matrix).

Vislumbro uma sociedade livre em que se valorize mais a estabilidade social que o lucro desenfreado. Isso não é uma utopia, pois já está ocorrendo nos países nórdicos.Você acredita nesse objetivo?

Os indivíduos sensatos, adaptam-se ao mundo que os cerca; os inconformados, passam a vida toda tentando adaptar o mundo à sua maneira de pensar. Entretanto, toda nossa evolução e progresso ocorreu graças a inconformados ... (George Bernard Shaw)

Converse com seus amigos ciclistas, plante essa semente em seus corações! Só comprem bicicletas novas, peças e acessórios se realmente for necessário. Gaste seu dinheiro passeando e curtindo a bike-vida! Logo vão nos oferecer algo melhor que peças que duram um ano.

Eder Giovani Savio - bike@eder.com.br

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